Não sou...

Estou vestida, apesar de me veres nua. Debaixo da minha pele, não sou o que vês, não sou o brilho que te ofusca. Sou lágrimas que choro dentro, porque sou feita de dor e de solidão. Não sou a alegria que contagia. Sou gritos e silêncios de dias tristes, em que nada quero e nada tenho. Não sou o sorriso, que encanta. Sou um vazio tonto, sou uma força fraca que enfrenta a vida a todo o custo, e insiste em esquecer as desilusões que a vida me oferece embrulhadas de cor. Não sou a voz esvoaçante que ouves. Sou o eco de sofrimentos escondidos que deixo nas palavras que te dedico. Disfarces que os meus dedos procuram cá fora, onde sei que tu me vês, e entre as quais, tento esconder a angustia que habita em mim.
O imponente Sol que insisto em ser, é afinal , a Lua Cheia de brilho emprestado, a caminho de um ridículo baile de máscaras onde as aparências iludem, e onde ninguém é o que mostra ser...

Recordo...

...
Lembro-me de ti sorrindo-me em silêncio.
Sei de cor as palavras que me disseste à sombra de um luar de Inverno, quando a chuva miudinha nos juntou e nos aconchegou debaixo do mesmo instante.
Ainda sinto na pele os ruídos que o desejo riscou quando me traçou as vontades e desenhou em ti murmúrios que ainda oiço bafejando-me o ouvido.
Em meus olhos faço parágrafos ao tempo querendo esquecer o que não vi, e tentando encontrar o quero ver.
Os lábios sentem o ardor dos beijos que me deste, quando abraçados ao calor da cumplicidade, te copiaste para dentro de mim e de mim passaste a fazer parte.
Para sempre ficaste na carícia das minhas mãos, e revestiste-me a pele de um perfume raro nunca inventado em qualquer episódio ausente da nossa história de fantasias.
As emoções dobraram-se em dois como um recado apaixonado num pedaço de papel, que só dois corações compassados conseguem partilhar e escrever em simultâneo.
Lembro-me de ti chorando quando limpaste a minha lágrima escondida, derramada na saudade de te voltar a sonhar perdidamente de olhos abertos.
Relembro o poema de Amor que em mim escreveste com a sabedoria dos teus dedos, releio as páginas brancas da minha alma e encontro pedaços de ti na forma da minha paixão.
Memorizei o silêncio que se fez soar quando nos despedimos na berma da estrada da eternidade, à porta da esperança de nos voltarmos a saber mais uma vez.
...
Lembro-me de nunca te ter conhecido, recordo apenas que sempre te amei…
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Empresto-te o que sinto, empresta-me o que sentes...
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Saudade Feita de Saudade...

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Estremeço por dentro quando sinto em mim o teu aroma único que agora me nasce dos poros e perfuma a minha pele de ti.
Invade-me o desejo, a loucura de estar, sentir, tocar e beijar, enquanto sustenho nos braços o peso e a frustração de lembrar e não ter.
Penso não querendo pensar, sinto não querendo sentir, nego o que não é negável, engano a alma e engano-me a mim quando me fecho na voz do silêncio que não solta as palavras que te quero dizer.
Uso agora a outra pele, que não conheço como minha, e protejo-me de certezas infundadas que a razão me rouba por tão bizarras e surreais serem.
A tua ausência enlaça-me, veste-me de ti, fico nua de mim, fecho os olhos e aquieto o corpo deixando passar o tempo sobre as horas em que não te tenho junto a mim.
Deixo que o pensamento me envolva e me toque como se tu o fizesses, deixo-me saborear lembrando o deslizar da tua língua tocando a minha e deixo-me levar num prazer quase real que me entristece.
O meu corpo abraça a falta que a tua alma me faz, contraria as leis do Universo e sente a tua presença inversamente ao desatino de não te ter entre os braços.
De alma exposta ao vazio de ti, carrego nas mãos a nostalgia de uma ilusão inventada, quando saudade era feita da saudade invertida de não conhecer o calor do teu rosto, o toque único das tuas mãos e o brilho do teu olhar.

Sinto saudade feita da saudade dos sonhos onde te sonhei...